sábado, 20 de abril de 2013

HOJE DE TATA AMARAL, AGORA AQUI.

CARTAZ DO FILME "HOJE" DE TATA AMARAL 

 A história centrada na relação da personagem Vera /Ana Maria (Denise Fraga) com Luis / Carlos (César Trancoso) através de alusões emotivas ao passado dos dois, que oscilam o tempo todo nas memórias deles, trazem ocorrências de suas vidas em comum de ativistas revolucionários em uma organização perseguida e em que ela é presa e torturada pela repressão da época. Ele é dado como desaparecido, a partir de 1974.

        Vinte e cinco anos depois, ela é indenizada com dinheiro pelo tempo de desaparecimento dele, compra um apartamento no centro de São Paulo, no dia da mudança ele inesperadamente reaparece e inicia um embate em que entram fatos, memórias, atos, comportamentos, posturas, desejos, atitudes subjetivas oprimidas pela repressão, concentradas naquele espaço e que vão se dissolvendo pelo tempo afora.

     Seus limites de classe também estão ali, expostos nas breves relações com os subalternos, que pouco aparecem: os carregadores dos móveis e a sindica insistente e repudiada pela necessidade de ação “Vera”, seja orientando os trabalhadores ou ocultando o companheiro revolucionário.  

     Relembram, as mazelas expostas, autoflagelam e se sacrificam para atingir a nova realidade em que estão cerceados seus sonhos e utopias. Entre os cômodos daquele apartamento estão delimitados suas ações e as paredes têm ouvidos... As emoções recalcadas vão transformando-os conforme vão se confrontando, liberando-as e libertando-os do passado e um do outro.

      Situações de alta tensão são dosadas com momentos suaves dos dois. Um com outro e consigo mesmos em contraste com o mundo em que são sobreviventes. Tudo digna e magistralmente conduzido pelas mãos da diretora do filme e pelo desempenho muito bem dosado dos atores em suas intervenções, a cada cena.

      Fora a própria realidade opressiva em que lutavam para transformar, o filme não mostra nenhuma imagem de torturador, tudo fica no combate emocional elevado ao máximo e que atinge seu pico na autorrevelação da personagem Vera, que corajosamente se autodenuncia expondo-se a si mesma quando assume a culpa pela delação não suportada na tortura e causadora da queda companheiro e pelo fim da organização e dos sonhos da luta armada.  
       
      Uma vez, ouvi uma ex- guerrilheira dizer que existia ex-torturada, mas, que não havia ex-torturador. Obviamente, a derrota da guerrilha não se deveu a fatores emocionais internos. Mas, toda a experiência da luta e em especial, a da luta armada foi uma experiência de consciência avançada de uma vanguarda militante, que praticamente foi dizimada pela ação veloz e violenta da repressão. Que com competência policial, os impediu e distanciou-os da outra vanguarda, a proletária e camponesa com quem pretendiam unir-se para mudar o mundo.

      Fizeram o possível e o impossível. Restaram-lhes as possibilidades das reformas. Como que para Vera continuar existindo no mundo transformado pela própria inércia, Luis precisava realmente desaparecer e não ser desaparecido. O passado exorcizado, mas não apagado. Superado por enfrentar seus próprios fantasmas.

      A preservação de sua sensibilidade evidenciada pela delicadeza vigorosa da direção é sua maior expressão de resistência aos opressores provenientes de todas as matizes ideológicas. É esse fio delicado, quase imperceptível da vida, que sobrevive e traz para o momento, com toda a atualidade necessária e sofisticação da liguagem cinematográfica, a desalienação questionando o nosso agora e aqui, necessária para novos desdobramentos das mesmas lutas do passado, o filme HOJE. 

                                                                                                   THAELMAN CARLOS

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