CARTAZ DO FILME "HOJE" DE TATA AMARAL
A história centrada
na relação da personagem Vera /Ana Maria (Denise Fraga) com Luis / Carlos (César
Trancoso) através de alusões emotivas ao passado dos dois, que oscilam o tempo
todo nas memórias deles, trazem ocorrências de suas vidas em comum de ativistas
revolucionários em uma organização perseguida e em que ela é presa e torturada
pela repressão da época. Ele é dado como desaparecido, a partir de 1974.
Vinte e cinco anos depois, ela é indenizada
com dinheiro pelo tempo de desaparecimento dele, compra um apartamento no
centro de São Paulo, no dia da mudança ele inesperadamente reaparece e inicia
um embate em que entram fatos, memórias, atos, comportamentos, posturas,
desejos, atitudes subjetivas oprimidas pela repressão, concentradas naquele
espaço e que vão se dissolvendo pelo tempo afora.
Seus limites de
classe também estão ali, expostos nas breves relações com os subalternos, que
pouco aparecem: os carregadores dos móveis e a sindica insistente e repudiada
pela necessidade de ação “Vera”, seja orientando os trabalhadores ou ocultando
o companheiro revolucionário.
Relembram, as
mazelas expostas, autoflagelam e se sacrificam para atingir a nova realidade em
que estão cerceados seus sonhos e utopias. Entre os cômodos daquele apartamento
estão delimitados suas ações e as paredes têm ouvidos... As emoções recalcadas
vão transformando-os conforme vão se confrontando, liberando-as e libertando-os
do passado e um do outro.
Situações de
alta tensão são dosadas com momentos suaves dos dois. Um com outro e consigo
mesmos em contraste com o mundo em que são sobreviventes. Tudo digna e
magistralmente conduzido pelas mãos da diretora do filme e pelo desempenho
muito bem dosado dos atores em suas intervenções, a cada cena.
Fora a própria
realidade opressiva em que lutavam para transformar, o filme não mostra nenhuma
imagem de torturador, tudo fica no combate emocional elevado ao máximo e que atinge
seu pico na autorrevelação da personagem Vera, que corajosamente se
autodenuncia expondo-se a si mesma quando assume a culpa pela delação não
suportada na tortura e causadora da queda companheiro e pelo fim da organização
e dos sonhos da luta armada.
Uma vez, ouvi
uma ex- guerrilheira dizer que existia ex-torturada, mas, que não havia
ex-torturador. Obviamente, a derrota da guerrilha não se deveu a fatores
emocionais internos. Mas, toda a experiência da luta e em especial, a da luta
armada foi uma experiência de consciência avançada de uma vanguarda militante,
que praticamente foi dizimada pela ação veloz e violenta da repressão. Que com
competência policial, os impediu e distanciou-os da outra vanguarda, a
proletária e camponesa com quem pretendiam unir-se para mudar o mundo.
Fizeram o
possível e o impossível. Restaram-lhes as possibilidades das reformas. Como que
para Vera continuar existindo no mundo transformado pela própria inércia, Luis
precisava realmente desaparecer e não ser desaparecido. O passado exorcizado,
mas não apagado. Superado por enfrentar seus próprios fantasmas.

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