sexta-feira, 7 de setembro de 2012

DE BRUNO BARRACANO À HILDA HILST: NINGUÉM MORRE MAIS!


 
O "BAMBINO" BRUNO 

              Bruno Barracano nasceu em 23 de Setembro de 1925, em Nápoles. Onde passaram os gregos vindos para a Itália, trazendo toda a bagagem, que fundou a cultura ocidental. "Foram eles (os gregos) que nos ensinaram tudo - dizia - eram uns picaretas".

             Seus pais Raffaele e Felice Aida, participavam de rallies, conheciam atalhos para chegar mais rápido da Itália à Suíssa, que outros não conheciam.Venciam. Comemoravam. Eram alegres. Sua mãe, educadora, aplicadora do método Montessori. Uma modernista.

            Com certo orgulho, Bruno repetia : -"Mussolini nunca entrou em Napoli". O fascismo marchou sobre Roma. Viu sua mãe ser fuzilada pelos nazistas alemães. Rejeitou para o resto de sua vida o "pan-germanismo" e a disciplina japonesa. "O karatê é indiano". Chegou a praticá-lo. Gostava dos americanos, "nos vendiam armas para lutar contra os nazistas - os soldados daquele pintor de paredes".

               ENFRENTANDO MUSSOLINI, HITLER E... MÉDICI"

           Sabia da importância de rebelar-se, contra a ordens impostas contra a humanidade. Definiu-se: "Na Itália lutei contra Mussolini, na Europa contra Hitler e no Brasil, contra Médici".

          Foi motorista de ambulância dos aliados.

          Lia Cícero, Horácio, Dante e Pound.

                                 LONDRES , NEW YORK 
 
CAMINHANDO EM MANHATTAN - NEW YORK
                               
          Depois da guerra, mudou-se para Londres e na Inglaterra "como os ingleses". Refinou seu humor. Shakespeare, Blake, mas quem escreve mesmo em inglês, são os irlandeses : Oscar Wilde,
Liam O'Flaherty, e claro, Joyce. O que tira o bom humor dos ingleses.

          Foi para o epicentro do capitalismo moderno, New York. Para ele, também uma capital européia : fundada por ingleses, cheia  de irlandeses, judeus de todos lugares,indianos, latinos e italianos.

          O beats firmavam a contracultura, Ginsberg liderava happenings, Timothy Leary distribuía LSD para convencer jovens americanos à não lutarem na guerra do Vietnam. Conheceu o poeta anarquista Robert Lowell.

          Viajou pela América de automóvel.

                                      NO BRASIL

          Sua estante tinha Hemingway, Fitzgerald, Wood Allen, Breton,  Baudelaire, Rimbaud, Vinícius de Moraes,blues,jazz, bossa nova, o samba tradicional e Adoniran Barbosa. Pilotou carros de corrida nas ruas de Brasília. De todos preferia, José Carlos Pacce, o "Moco". Esse entendia do assunto.


           Casou-se com Eny. Deu seu nome aos quatro filhos de um grande amigo, que morreu, adotando-os.

           Foi para os EUA, voltou novamente para o Brasil. Já separado, apaixonou-se por Eloísa, a pedagoga da "UUUSSSSPPPP" entonava grave sempre que citava a Universidade de São Paulo.
 
BRUNO DANÇANDO COM SUA MULHER ELOÍSA NA PORTA DA FACULDADE DE PEDAGOGIA DA USP. PERSEGUIDA PELA DITADURA  ELOÍSA FALECEU MUITO JOVEM , VÍTIMA DE CÂNCER.

                                   LIVRO DE POESIA

              O casal mantinha um caderno, onde escreviam poesias. Morou na rua Avanhandava no prédio onde embaixo está o Restaurante Gigetto, ponto de artistas e onde devorava suas lulas à doré, seu prato predileto. O apartamento tinha uma porta secreta dando passagem para o apartamento de seu vizinho, onde moravam vários artistas e intelectuais e estavam  por ali , o dramaturgo Plínio Marcos e o artista plástico André Peticov. Manter uma porta secreta era adequado naquela época de perseguições da ditadura.

                                  HUMOR CÁUSTICO

             Morou em Nova Odessa, Campinas e frequentava a chácara Casa do Sol , de sua amiga Hilda Hilst. Contou-me de sua ida com ela à palestra do poeta mexicano Otávio Paz, no auditório do Estadão. Décio Pignatari  também estava lá. Dizia-me: -" Hilda era uma burguesa. Os intelectuais não gostavam de Paulo Coelho porque sentiam inveja de seu sucesso comercial. São uns ressentidos. Tem de lutar muito para ter espaço em uma sociedade, que os rejeita. Quando quem quer que for, gênio ou idiota, se destacar, sentirá a vingança de seus pares, que  jamais admitem essa profanação do romantismo ainda dominante. Hilda escreve muito bem, é uma grande escritora. Uma intelectual arrogante. E, eu um sobrevivente. Sou um sobrevivente.

            Mudou-se para Cotia. Vendeu a casa para o ator Luiz Ramalho, amigo comum. Em 1998, mudou-se para Caraguatatuba, no Litoral Norte de SP, onde o conheci. Contava-me suas histórias. Bebíamos cerveja, ensinou-me inglês, molho napolitano, viajamos juntos em seu automóvel de Caraguá à Tupã.Insistiu em conhecer meu pai pessoalmente. Passamos alguns dias juntos, mas era como se conhecessem há séculos. Chamava a Eliana de "bbbbiiiibbblllliiiooootteeccáááárrriiaa". Ás vezes eu tocava violão para ele ouvir e cantarmos juntos. Discutíamos arte, literatura,sexo, política, futebol. Torcia para o Corinthians. Contribuiu com textos inéditos para a ANGU, que nasceu ali. Lançou o heterônimo  Nemo, que em português é ninguém.

                             "NINGUÉM MORRE MAIS"

              Antes de morrer , saiu de Caraguatatuba e foi para Nova Odessa, ficar com a Vânia. Logo, fui avisado em casa pela Ana Paula casada com seu neto, o ator e dramaturgo Daniel Forjaz. Foi sepultado em Nova Odessa.
                          BRUNO BARRACANO      -     HILDA HILST  
              No dia da morte de Hilda Hilst , 04 de Fevereiro de 2004, escreveu:
 
                                  Morre em Campinas

                        Hilda minha amiga querida e terrível.

                        Hilda eu escrevo isto para você. Você quando Eloísa morreu me disse: Bruno não fique triste, pois a alma é feita de matéria quântica. Portanto ignore a ideia da morte ( Lupesco - Sobornne) Eu disse Hilda , isto é mais uma de suas ideias mirabolantes - mas muito séria ela me olhou  e disse: - Você vai ver se é mirabolante.

                       Hilda não sei como que o Lupesco, físico nuclear, catedrático de Sorbonne era o cara, que tinha enunciado este postulado : A alma é feita de matéria quântica, portanto não morre.Não nos preocupemos : ninguém morre mais.


                       A Hilda era assim, portanto, não morreu.
 

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